Quem é Cléa?















Quando nos 'predispomos' a falar de nós... a missão nunca é fácil.Os defeitos são muito poucos reconhecidos. As qualidades exaltadas...Sendo assim, vou falar do eu não sabia. Do que descobri em mim. ***Eu descobri... Quando eu escolhi ser Assistente Social, tinha na cabeça que a "realidade cruel da vida" de pessoas humildes, era apenas a fome, a falta de educação ( não me refiro a Educação doméstica), a falta de emprego, dentre outros problemas menores. Quão boba sou eu! A realidade é muito mais agressiva que poderia imaginar. Todos nós precisamos um dia, levar um choque dessa tal realidade.  Bom, para finalizar o meu trabalho de curso, o famoso TCC, eu me deparei com inúmeras dúvidas sobre o que eu queria escrever... Nunca planejei nada. Eu era uma caixinha verde de interrogações. Então, comecei a mexer aqui, fuçar "acolá" e finalmente decidi. Sempre tive o sonho de conhecer as minhas raízes, conhecer mais a história dos escravos,de luta... buscar a minha verdadeira identidade enquanto mulher negra. Fui me parar na África, em Moçambique. Vaidade? Alguns dizem que sim! Talvez naquela época em que nada sabia da vida e do mundo, esse sonho sim, pudesse ser denominado de vaidade. Mas hoje, certa do que "quero ser quando crescer", vejo que esse sonho não era apenas conhecer as raízes da qual faço parte.  Decidi escrever sobre: " O Amparo às mulheres soropositivas em Moçambique", e para isso eu teria que viver um pouquinho da doença de cada mulher, passar um pouquinho da fome que elas passam diariamente, pisar no barro que elas pisam, sem a preocupação de ficar "fouveira", e enfrentar piadinhas tipo: "Foi pra África gastar dinheiro, heim..." , ou " Aqui com tanta miséria você foi ver a miséria dos outros fora do País?" Rs... Pouco me importei com esses comentários chulos! Lá estive, vivendo um pouquinho de cada coisa. São crianças abandonadas, são mulheres violentadas moralmente e fisicamente, são mulheres dormindo em pé nas ruas, por não ter onde dormir... São tantas mazelas, que prefiro não traçar todas. Posso não ter o resultado esperado com essa pesquisa, mas tenho a certeza, que o maior resultado será a lição que levarei comigo pra casa e para toda vida. Tive apenas dois encontros com duas organizações, e acredite... foram os encontros que certamente mexeram positiva e negativamente comigo.  Eu nunca mais serei a mesma. A força que elas tem, tanto as mulheres acometidas pelo vírus, quanto as mulheres que as apoiam, é sobrenatural. As pessoas que converso, dizem: " Eu imagino!" Não! Não imagina... Por trás dessas lindas capulanas ( tecidos que vestem por tradição) existem mulheres que sofrem caladas, mas que dançam felizes, para recepcionar um visitante. " Hoio hoio"! Nenhuma delas, chega até você e diz: "me ajude." Nenhuma delas se queixou de nada, absolutamente nada! Enquanto eu e você, reclama por que passou o final de semana em casa por que não tinha grana pra tomar uma cerveja. Ninguém pode imaginar quão doloroso é, a pós a visita. A noite não chega, apesar de já ter dado 20, 21 ou 22 horas... o pensamento borbulha como água de arroz no fogo.  O coração fica um alvoroço só... aquelas mulheres merecem o óscar!

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